No momento em que vi, e ouvi, na televisão, Paulo Ricardo e Caetano Veloso, juntos, cantando “London London”, tive a certeza nítida de estar diante de um evento raro e belo, um verdadeiro encontro. Diferentes gerações e caminhos musicais reconheciam-se em terreno comum: não havia ruptura, mas continuidade, tradição. Era um desses momentos que nos revelam, finalmente, a harmonia que existe além dos conflitos. Daquele ponto, podia-se ver a paz no horizonte.

Quando for escrita a história da MPB em nossos tempos, tal momento será necessariamente lembrado. É importante, por isso, que se registre que ele foi criado, antes de mais nada, pela consciência artística de Paulo Ricardo. Essa consciência tem orientado seu trabalho e se evidencia, mais uma vez, em seu primeiro LP solo.
Paulo Ricardo sabe que o rock brasileiro só pode ser, por fatalidade geográfica e cultural, um gênero da música popular brasileira – a famosa MPB, como querem alguns – a exemplo do samba, do baião, da toada, da bossa-nova, do maracatu, do fox-trot, do choro, do bolero, da valsa etc. – todas elas formas musicais populares feitas aqui, por nossa gente. Esta lição, ensinada pelos tropicalistas, é definitiva.

A proposta de Paulo Ricardo é de síntese, orientada não por ecletismo superficial, mas por assimilação visceral. Podemos ouvir vários exemplos disso em seu novo LP – no qual, aliás, ele assina todas as faixas.

Canções, Revoluções evoca os sons da revolução juvenil para assinalar as origens da decepção contemporânea. Qualquer relação com o RPM, o grupo de rock, é mera coincidência.

A Um Passo da Eternidade, título de um filme dos anos 50, foi composta com Fernando Deluqui, e reitera, em tom épico, o tema da desilusão, mas ressalva que “foram-se os anéis”. Com uma reverência na direção de Raul Seixas, é, finda a noite, uma saudação à aurora.

Indo e Vindo, introduzida por uma harmônica, vem da origem comum do rock ‘n’ roll, o rhythm ‘n blues tradicional. É uma canção digna de mochileiros de outros tempos; foi feita para a estrada e, ao cantá-la, Paulo Ricardo Está particularmente à vontade, feliz.

Sem Mim, outra parceria com Deluqui, é no espírito e principalmente na letra, um samba do tipo tradicional dor-de-cotovelo. A forma musical, o rock, é antitética, mas a intenção é a mesma, uma contradição entre forma e conteúdo bem interessante.

Um Paraíso, sobre prostitutas de doze anos é uma canção engagé que revela preocupação social típica. Feita também com Deluqui, declara que “não quero, não aceito a fome”. É uma canção áspera e viril.

Viver Por Viver, feita com Guilherme Canaes, celebra o senso de liberdade e participação, que vem do rock dos 60. “A gente ainda mora na filosofia” – garante a letra, assegurando que a aspiração literária continua viva, apesar de tudo. Embora poucos, há santos e loucos.

A Arte de Fazer Amor, com Deluqui, é uma tentativa, até bem-sucedida, de fazer uma tradução musical do ato do amor físico. Lembrei da expressão “risos gagos” – uma metáfora de Drummond, ao tratar o mesmo tema; mas a metáfora mais apropriada, aqui, é o transe.

A Fina Poeira do Ar, ainda com Deluqui, é o clímax conceitual do disco, sua essência em termos de conteúdo. “Eu sei que o mundo não faz sentido”, mas “tudo tem que ser vivido” – diz a letra. Há uma ampliação tropicalista do universo alternativo do rock. Ouve-se a voz de Rita Lee, um solo de clarinete e, no final, Paulo Ricardo recita William Shakespeare.

O Nylon e o Marfim, enuncia uma dualidade básica da sensibilidade do artista, que se expressa tanto na “pérola da palavra” quanto no “caule musical” desta canção. Há tapetes e cortinas de cordas, no arranjo, e um solo de sax-alto; observa-se uma sofisticação crescente na linguagem do disco.

Nas Rochas vem de um poema de Khlébnikov, trazudido por Augusto de Campos e transformado em canção com a colaboração de Deluqui. Há brumas e mistérios até Paulo Ricardo cantar os versos violentos, impiedosos. É a catarse final.

O disco de Paulo Ricardo firma posições, mas com insinuante delicadeza. É obra de um charmeur, um criador perspicaz, um artista inteligente no discernimento de sua circunstância e, afinal, um ótimo cantor que valoriza muito o trabalho do compositor.

* TEXTO DE DIVULGAÇÃO DO DISCO ESCRITO POR LUIZ CARLOS MACIEL.

FAIXAS:

1 – Canções, Revoluções
2 – A Um Passo da Eternidade
3 – Indo e Vindo (One For The Road)
4 – Sem Mim
5 – Um Paraíso
6 – Viver Por Viver
7 – A Arte de Fazer Amor
8 – A Fina Poeira do Ar (Tema do filme “Doida Demais”, com participação especial de Rita Lee).
9 – O Nylon e o Marfim
10 – Nas Rochas